sábado, 2 de maio de 2015

[Engodética] Engodo por nomenclatura

Querida Papisa Mariana a Única, Rainha do Mundo,

Tenha saúde,

Como sacerdotes, deveríamos saber ou aprender técnicas de controle das massas e de lavagem cerebral. Eu posso lhe passar algumas informações que eu encontre ou desenvolva sobre isso. Eu vou identificar minhas mensagens nessa matéria por 'engodética', de engodo, que não é bem a erística propriamente dita, mas um conjunto de técnicas que tenho observado que usam as tendências naturais das pessoas para dar-lhes a impressão de algo que não é. Essas técnicas não usadas tão-somente por religiosos, mas também por políticos, médicos e até cientistas.

Para começar, gostaria de lhe tratar do engodo por nomenclatura.

Em culturas impropriamente chamadas de 'primitivas'—aquelas que não alcançaram o nível de sofisticação de terem seus próprios antropólogos—o nome é tido como coisa sagrada, cujo conhecimento só deve ser compartilhado com aqueles de confiança. Entre os egípcios antigos, ao nome se atribuíam propriedades que influenciavam a vida da pessoa, e lhe davam dignidade, a ponto que uma pena que se podia impor a um condenado era mudar-lhe o nome para algo menos nobre ou injurioso.

Na nossa cultura, por outro lado, nome se confunde com identidade. Um nome não pode ser mudado, sequer para adaptá-lo a outra língua (ao menos aqui no Brasil; na Argentina fala-se em Carlos Marx, Federico Engels, León Tolstói¹ e Isabel II del Reino Unido). Nas outras culturas ocidentais industrializadas, onde não há esse tipo de tabu, deve haver outros—certas coisas nunca se tornam "primitivas" demais.

A técnica da nomenclatura é muito usada por médicos e cientistas. Termos como bradicinesia (movimento lento), idiopático (sem causa conhecida—num dos primeiros episódios de House, ante à sugestão de um de seus assistentes de que não-me-lembro-o-quê fosse idiopático, Dr. House respondeu que "Idiopático é o termo em latim para 'nós somos idiotas e não sabemos a causa'!") só servem para dar impressão de uma parte ter um conhecimento que a outra não tem.

Se você chegou ao livro Almost Harmless da série The Hitchhiker's Guide to the Galaxy, certamente não será nenhuma novidade para você que é muito comum entre os cientistas dar nomes às coisas sem antes saber direito o que são. Por exemplo, o que há de "escuro" em 'matéria escura' e 'energia escura' é que ninguém sabe direito o que é.

Existem termos que são aceitos como explicação de coisas mas que não explicam coisa alguma. Reações de Maillard é um termo que vi numa matéria online da Muy Interesante para "explicar" porque algumas coisas ficam amarronzadas quando cozidas! Quando um grande grupo de pessoas age de forma irracional e agressiva, chama-se a isso "comportamento de manada", e há quem trate da questão daí por diante como se já tivesse explicado. 'Comportamento de manada' não explica nada, não diz a origem, nem dá os motivos de tal comportamento. Não é nem o começo, pois há que explicar porque tais seres humanos agem dessa maneira diante de tais situações. 

Toda vez que mencionamos nossos deuses pelo nome, seja Éris, Glícão, Jibbers Crabst, damos às pessoas a impressão de que sabemos de algo que elas não sabem. Podemos inventar nomes para fenômenos prosaicos—como 'anseio pela Moira', para designar a sensação que alguém tem de que tem uma missão importante no mundo—para dar uma impressão de domínio sobre determinados assuntos, basta ser convincente. Mesmo numa época com smartphones com acesso buscadores da Internet para todo lado, ainda dá para se passar por conhecedor de bastante coisa—basta falar com convicção e talvez mencionar fontes inacessíveis de conhecimento, como a glândula pineal, meditação, vozes na cabeça… ou livros ;-) !

Leituras adicionais: "The name game", por Stuart Firestein. The Effrundibulum Maneuver, por Scott Adams.

Em tempo: você deve querer saber o que me fez pensar sobre esse assunto. Pois bem, foi o Hitchhiker's Guide to the Galaxy. Percebi o efeito que um nome pode ter ao reparar como Douglas Adams usava o termo 'sub-etha' ou 'sub-ether' quando mencionava qualquer tecnologia de comunicação alienígena, mas nunca dizia o que o tal sub-ether era ou como funcionava.

Today is the 23rd day to Discoflux, in the 29th yCWC.

Teu seguro servidor que lhe beija a mão,
--   –><–  Rev. Alexandṛ dell'A r Appia, Amordi, IIPJ, Oracle to Glycon  Today is the 43rd day to Discoflux, in the 29th yCWC.  Steele's Law:  	There exist tasks which cannot be done by more than ten men  	or fewer than one hundred.      
nota_1: No caso de Tolstói, fazemos o pior possível, pois o chamamos Leon (como francês) em vez de Leão (português) ou Lev (russo).

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