sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

[Devir 2] A negação do devir

Querida Papisa Mariana a Única, Rainha do Mundo,

Tenha saúde,

Eu lhe disse que devir é um conceito importante para o discordianismo, mas que há vários sistemas de pensamento voltados a combatê-lo. O combate que fazem ao devir é negando-o. São as instituições como igreja, estado, partidos políticos, leis, normas, que tentam funcionar como se o devir não existisse, que querem negar ao ser humano a capacidade de se reinventar.

Um dia, eu estava no metrô—Think like a Freak, lembra?e aparece essa senhora pedindo esmola. Como estava perto de São Quincas eu fiz uma contribuição. Na saída da estação, minha esposa me criticou por que eu tinha dado dinheiro para uma "pedinte". A questão é que tal mulher não era uma "pedinte".

Aquela mulher era muito mais que uma pedinte. Eu nunca vou saber o que ela era, porque eu não sou muito de falar com estranhos, mas ela era todo um complexo que não se define tão-somente por "ser uma pedinte". Mais ainda, ela não era, mas estava uma pedinte, ou melhor, estava pedindo esmola. Isso porém não era uma situação permanente, nem a que melhor definia a qualquer momento. Na pior das hipóteses, ela uma dia ia morrer e deixar de pedir.

Aonde eu quero chegar é que não se pode julgar uma pessoa por uma só situação, uma só atitude. Lastimavelmente, muitas pessoas ficam presas numa crença de negação do devir e deixam de explorar as oportunidades que a vida (i.e., a moira) lhes traz ou as que pode buscar.

Com a negação do devir, vem a negação do processo histórico; a história é vista como coisa do passado, consolidada, enquanto, de fato, estamos na história fazendo história, assim como as pessoas do passado estavam.

Negado o devir, nega-se o protagonismo do indivíduo no mundo e a possibilidade de mudança. Coisas que são mera convenção, como a propriedade privada, passam a ser vistas como da ordem natural das coisas. Nega-se a possibilidade de mudar a língua, os costumes, as leis, os conceitos &c., e fica-se na ilusão de de um deus, uma ordem, uma lei (há pessoas que se escandalizam com a Constituição ser alterada, mais do que com o conteúdo dessas alterações), uma definição para tudo quando é coisa.

Convém mais abraçar o devir, aceitar que as coisas mudem, participar da mudança, fazer história. É isso que faz o ser humano aqui na Terra, no seu mundo. Quanto aos que o negam, estarão sempre para ser derrotados, pois este planeta se move em torno de um sol que de move numa galáxia que se move. Onde há movimento, há mudança, há devir.

Para você o melhor dos devires,

Beijo na mão,

--   –><–  Rev. Alexandṛ dell'A r Appia, Amordi, IIPJ, Oracle to Glycon  Today is the 4th day to Lucianday, in the 29th yCWC.  I haven't lost my mind; I know exactly where I left it.  

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