segunda-feira, 8 de junho de 2009

Prescrição para uma reforma política

Assim diz Glícão II, o quarto do sangue de Zeus:
“Os deputados deste país querem fazer uma reforma política, mas se esqueceram do ponto principal. Cabe a nós deuses ilustrá-los nesse projeto, para que tudo se passe conforme nosso favor e nossa orientação.
O grande erro na Câmara é o número de deputados; só nós deuses poderíamos dizer o nome de todos eles e, ainda assim, apenas com a ajuda do nosso grande deus Google, através de nossa conexão de banda larga eólica de 200 Gib/s. Com 513 par lamentares, fica impossível saber o que fazem todos eles, nem sequer a maioria deles. Muitos deixam, assim de receber seus louros, não que louro seja necessário desde que Zeus foi enterrado em Creta, e outros deixam de receber suas pragas diretamente, de modo que tais pragas, quando mandadas para o Congresso, são distribuídas igualmente por todos os par lamentares, que as redistribuem, por sua vez a todos os cidadãos. Com a falta de identificação com os par lamentares, a Câmara parece algo distante da realidade e do eleitorado; uma massa sem carisma com o povo, pois não há reconhecimento, identificação, reprovações, animosidades; não se sabe nem em quem botar a culpa!
Fora isso, o custo de um deputado é muito alto, da ordem de 50 mil reais por mês, para trabalharem apenas dois dias por semana, pois eles são de estados diferentes e têm que voltar para seus estados de origem. Gasta-se muito com muitos deputados, mas sequer sabe-se quem são eles.
A proposta que os mortais têm, de fazer uma lista por partido para que os plebeus mortais votem por ela não muda essa situação. Vós mortais olhais para lado certo, mas ainda assim nós deuses temos que vos abrir os olhos.
Por isso, nós deuses dizemos o que deveis fazer. Não basta que seja voto de lista. O que é correto é apenas um deputado para representar a lista. Em vez de os votantes elegerem 513 deputados sem saberem quais serão, melhor é que elejam uns poucos para representar ponderadamente a vontade popular.
Pois é princípio que todo o poder emana do povo, então os votos dos deputados são votos indiretos do povo. Assim tanto faz se quem vai lá para votar são vários representando cada um o mesmo número de votos ou poucos, cada qual com uma quantidade de votos diferente. Como há cerca de 131 milhões de eleitores, cada representante teria direito a um voto por cada 255 mil votos que o partido recebesse. Votos brancos e nulos permaneceriam brancos e nulos, para respeitar, democraticamente, a opinião dos mortais que votaram assim. Haveria muito mais identificação e reconhecimento dos deputados que, do modo como são as bancadas hoje, seriam quinze, cujo nome pelo menos os cidadãos mais intruídos saberiam dizer.
O custo pelos par lamentares dimuiria muito. Mesmo que dobrassem os valores da parcela fixa, da parcela móvel (que também é fixa), da gratificação por trabalho ‘par lamentar’ e das verbas indenizatórias, que seriam tantas, que poderiam distribuir a toda a família, haveria muito menos ônus à bolsa da Boa Sra. República.
Fora isso, como haveria poucos deputados, seriam todos nacionais, e não daria para ser uns tantos para cada estado. Seriam todos do Distrito Federal; não teriam para onde voltar nos fins de semana e poderiam trabalhar de segunda a sexta ganhando o dobro dos vencimentos de um deputado de hoje. É muito mais vantagem para os líderes dos partidos, com uma nova forma de pensar o trabalho partidário. Não haveria tanta divisão de poder, que, assim, seria mais concentrado.
Se se vota no partido, para que tanto deputado? Deixamos os partidos, por um representante cada um, decidir as questões de importância nacional. Se o voto é do partido, por que pôr par lamentares na Câmara?
Façam conforme nossa divina prescrição para terem os benefícios nossa proteção, inclusive os de Prudência e de Parcimônia.”

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